Entrevistada: Luciana Carnieli

Por Nanda Rovere

Del.Art: Como foi a decisão de fazer teatro e estudar na EAD? Qual o seu objetivo como atriz?
Luciana Carnieli: Decidi fazer teatro ainda na escola, quando era adolescente. Na época, eu estudava seriamente balé clássico e o teatro me pareceu uma opção de expressão artística muito sedutora por lidar com a palavra. Sem dúvida, o poder questionador do teatro também foi definitivo para que eu me apaixonasse por ele.
A EAD surgiu como conseqüência da vontade de seguir essa carreira. Foi muito importante ter freqüentado e concluído o curso lá. Conheci pessoas muito interessantes. Ótimos professores, amizades que mantenho até hoje e artistas com os quais fiz parcerias maravilhosas.

Del.Art: Você tem uma expressão corporal muito forte. Como consegue manter esse vigor?
Luciana: Por ter praticado dança muito tempo, acredito que meu corpo tem uma memória desse trabalho. Também tive a felicidade de participar de processos de ensaio, onde o treino corporal sempre foi muito importante. No mais, procuro deixá-lo sempre vivo e disponível para a minha arte.

Del.Art: Conheci o seu trabalho no espetáculo Ópera do Malandro, direção de Gabriel Villela. Como foi a experiência de trabalhar num texto de autoria de Chico Buarque e como é ser dirigida pelo Gabriel?
Luciana: Ópera do Malandro foi uma das experiências mais felizes de minha carreira até hoje. Um texto delicioso, com canções maravilhosas, colegas de grande talento e queridos amigos. Gabriel Villela é um diretor extremamente talentoso, criativo e original em suas criações. Sempre dá pérolas para que o ator desenvolva. Essa foi a primeira vez que trabalhei com ele, tendo a alegria de voltar a encontrá-lo em Gota D’Água e Leonce e Lena.

Del.Art: Você já fez alguns musicais. O que pensa sobre o ¨boom¨ de teatro desse estilo em São Paulo?
Luciana: Todos os musicais dos quais participei sempre foram brasileiros, onde o texto é tão importante para a ação quanto a música ou, às vezes, até mais. Acredito que, quanto mais diversificado o teatro for, melhor pros paulistanos que vão poder assistir a espetáculos dos gêneros mais diversos.

Del.Art: Como foi fazer a Marlene nas Favoritas do Rádio. Já conhecia o repertório da cantora?
Luciana: Eu amei fazer a Marlene. Conhecia várias músicas de seu repertório, mas muitas vezes não sabia que era ela que tinha lançado determinada canção. Ela foi uma cantora de grande presença cênica, repertório alegre, muito samba e espírito guerreiro.
Com as Favoritas do Rádio, eu pude conhecer e me envolver com uma parte de nossa cultura que eu absolutamente não conhecia. E, confesso, também me entristecer ao ver como no Brasil os artistas são completamente esquecidos de uma hora para outra.

Del.Art: Você já trabalhou em espetáculos e com diretores de diferentes estilos (Gabriel, Cássio Scapin, Cininha de Paula e Ney Matogrosso, Renata Melo, entre outros). Como foram as experiências e o que aprendeu com eles?
Luciana: Cada espetáculo é único e cada diretor vem com seu estilo e proposta. Venho trabalhando com ótimos diretores e sempre levo lições de cada um pro meu repertório pessoal.

Del.Art: E o canto, tem vontade de se dedicar a ele? Como cuida da sua voz e que tipo de música gosta de ouvir?
Luciana: O canto é para mim uma ferramenta do meu trabalho como atriz. Quando faço um espetáculo onde é necessário cantar, me dedico seriamente a ele, assim como quando faço uma peça que necessite de outras habilidades corporais.
Pratico alguns exercícios vocais e sempre aqueço a voz antes de entrar em cena.
Quanto à música, ouço os estilos mais variados: de música clássica a pop rock. Para ser mais precisa, os dois CDs que tenho ouvido mais, ultimamente, são o Cd do Gero Camilo – Canções de Invento – e o CD do espetáculo Marília Pêra canta Carmen Miranda.

Del.Art: Como surgiu a idéia de montar um espetáculo sobre a Cacilda e como foi o processo de criação da montagem?
Luciana: Logo que comecei a fazer teatro, comecei a ler coisas sobre a Cacilda Becker e me encantei por ela. Fui reunindo material sobre sua vida durante vários anos, até que um dia achei que poderia usar algumas de suas idéias e palavras para fazer uma reflexão sobre o teatro e a vida. Escrever o texto até que foi relativamente rápido, pois a pesquisa já tinha sido extensa.

Del.Art: Você assinou a dramaturgia de As Favoritas do Rádio e Meu Abajur de Injeção. Pretende se dedicar à dramaturgia? Como foi a experiência de escrevê-los e encená-los?
Luciana: Não sei dizer. Só pude escrever esses textos já pensando na cena concreta mesmo. Se acontecer novamente de ter uma idéia e levá-la pro papel, que venha!

Del.Art: A Cacilda não foi tratada como mito, mas como um ser humano com qualidades e defeitos, batalhadora. Em nenhum momento você imita a Cacilda. Como foi o processo de criação da personagem?
Luciana: Eu procurei trazer para a cena uma mulher coerente com aquelas idéias. Uma mulher que viveu na miséria e no glamour, que roubou para comer e foi a primeira dama do teatro brasileiro. É tão contraditório, tão humano e rico! As únicas referências visuais que tive dela, além de fotos, foram Floradas na Serra e trechos de outro filme, chamado Luz dos Meus Olhos. Nem que eu quisesse, seria possível imitá-la. Tive acesso a algumas fitas cassete com a voz dela. Em alguns momentos, tento aproximar o registro vocal.

Del.Art: Por que o título Meu Abajur de Injeção?
Luciana: Meu Abajur de Injeção é um título metafórico, meio original mesmo. As pessoas às vezes estranham, mas o espetáculo tem em cena um abajur que contracena comigo o tempo todo. E ele está sempre relacionado à luz que eu acredito ter o pensamento de Cacilda Becker e que é, sem dúvida, uma “injeção” pros artistas.

Del.Art: Os seus movimentos na peça são precisos, tudo é muito poético. Como foi a entrada da Georgette no projeto e a experiência de ser dirigida por ela?
Luciana: Georgette e eu fomos contemporâneas na EAD e sempre ficou a promessa e a vontade de virmos a trabalhar juntas. Eu a convidei para esse projeto porque tinha a certeza de que ela seria a pessoa ideal para me dar liberdade de criação e trazer um olhar de fora muito enriquecedor. Nosso processo de criação foi de troca constante.

Del.Art: A utilização de bonecos e dos elementos cênicos como um todo nos remete à vida e, já no final da peça, à morte. Comente a idealização do cenário, trilha, figurino e luz.
Luciana: O processo de toda a equipe de criação foi bastante integrado. Davi Taiu – criador do cenário, figurino e bonecos, Adilson Rodrigues – autor da música – e Miló Martins – criadora da luz – estavam sempre presentes aos ensaios e iam trazendo idéias que iam sendo incorporadas à cena.

Del.Art: Esta peça te ensinou algo que você carregará pela sua trajetória profissional?
Luciana: Só por ter escolhido falar sobre Cacilda Becker é porque ela é uma mulher que já me ensinou muito. Quanto ao espetáculo em si, o aprendizado é diário. Fazer um solo é extremamente trabalhoso e me traz lições que, espero, me enriqueçam como atriz.

Del.Art: É a terceira temporada do espetáculo e com significativo sucesso. Como você lida com a crítica e qual a sensação de ver a peça entre as dez melhores de Veja São Paulo?
Luciana: Eu fico muito feliz quando a crítica gosta do trabalho que estou fazendo, porque o público leva em conta a opinião dos jornalistas. A cotação da Veja nos deixou muito contentes e esperamos todo mundo que gosta de teatro para assistir Meu Abajur de Injeção.

Del.Art: Tem ido ao teatro? Como você vê o teatro neste momento?
Luciana: Como estou em cartaz com duas peças ao mesmo tempo, não tenho tido muita chance de ir ao teatro. Mas uma das últimas peças que vi e amei foi Chorinho, do Fauzi Arap.

Del.Art: Novos Projetos?
Luciana: Sempre tem! Mas ainda engatinhando...

 

Trajetória profissional:

Luciana Carnieli é um dos destaques dos palcos paulistanos na atualidade.
Formada pela EAD (Escola de Arte Dramática), Luciana é uma atriz com trabalhos diversificados, expressiva e talentosa. Domina o canto e chama atenção por sua voz afinada.
Está em cartaz com dois espetáculos, Simpatia e Meu Abajur de Injeção. Em Simpatia, ela é um dos destaques e consegue bons resultados no drama e na comédia, ao lado de artistas como Leandra Leal e Xuxa Lopes.
Em Meu Abajur de Injeção, solo sobre Cacilda Becker, com direção de Georgette Fadel, Luciana interpreta Cacilda com segurança, enfocando a trajetória da atriz e o seu temperamento batalhador e intempestivo. A peça começa retratando a infância e adolescência de Cacilda, momentos da vida particular, a descoberta do teatro e a dedicação à profissão. Através da trajetória da atriz, Luciana revive a realidade do artista no Brasil nas décadas de quarenta, cinqüenta e sessenta. Merece destaque o uso de bonecos para a encenação, proporcionando lirismo à montagem.
Luciana está entre as grandes atrizes de sua geração e felizmente tem participado de boas montagens, como: Romance, direção de Márcia Abujamra; Alô, Alô, Terezinha (alternando a interpretação de uma das protagonistas com Rosi Campos), direção de Hugo Possolo; Leonce e Lena, Gota d'Água e Ópera do Malandro, todos com direção de Gabriel Villela; A Farsa do Advogado Pathelin, direção de Cássio Scapin; Somos Irmãs, direção de Cininha de Paula e Ney Matogrosso e As Favoritas do Rádio (a conturbada relação entre as cantoras Marlene e Emilinha Borba, direção de Regina Galdino e autoria de Regina Galdino e Luciana Carnieli).

Para saber mais sobre Meu Abajur de Injeção:
http://www.meuabajur.blogspot.com/

Serviço:
Meu Abajur de Injeção
Espaço Parlapatões - Praça Roosevelt, 158
Tel: (11)3258-4449
Temporada às terças e quartas às 21h
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Até 12 de março

Simpatia:
Tuca - r. Monte Alegre, 1.024, Perdizes
Tel: (11) 3188-4156
Temporada às sextas e sábados às 21h. Domingo às 19h.
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia)
Até 30 de março

Fotos:

Luciana Carnieli. Foto: João Caldas
A Ama de Leonce e Lena. Foto: João Caldas
Cena de Meu Abajur de Injeção. Foto: Lenise Pinheiro
Cena de Simpatia. Foto: João Caldas