Entrevistado: Julio Carrara - Dramaturgo, Diretor e Ator

Del.Art: Muitos dos seus textos são dirigidos por você mesmo. Como é montar um espetáculo de sua própria autoria?

Julio Carrara: Primeiro: se eu não acertar, estragarei uma obra minha. Segundo: por exercer duas funções completamente distintas, me policio muito porque falta-me a visão "de fora". Normalmente convido diretores para ver os ensaios e proponho discussões, improvisações com os atores e quando surgem boas idéias evidentemente que as incluo na encenação.

 

Del.Art: Você respeita a integridade de textos de outros dramaturgos textos assim como os seus?

Julio Carrara: Sim. A princípio, não mudava uma virgula. Porém, muitas vezes é necessário enxugar, cortar determinados trechos. Quando o autor é vivo basta contata-lo para saber a sua opinião. No caso de Shakespeare por exemplo, eu corto, mas sem perder sua essência.

 

Del.Art: Ser diretor não atrapalha na elaboração de seus textos?

Julio Carrara: Um pouco. Normalmente escrevo um texto pensando em como ele será encenado. Uso uma grande quantidade de rubricas, mas para me localizar na encenação. Quando monto um texto meu, elimino a maioria das rubricas para não ficar limitado à elas. E oriento os diretores que se interessam em encenar minhas obras que as eliminem também pelo mesmo motivo.

 

Del.Art: Se você orienta que eliminem suas rubricas, por quê a incluem em seus textos?

Julio Carrara: Frescura!

 

Del.Art: Já ficou insatisfeito com alguma obra sua dirigida por outra pessoa?

Julio Carrara: Sim. Mas o fato de eu gostar ou não do resultado, não quer dizer que está ruim, apenas não superou as minhas expectativas.

 

Del.Art: Não é cômodo montar seus próprios textos?

Julio Carrara: Não acho. Montar meus textos, me dá a oportunidade de expor minhas próprias idéias, desejos, traumas, angústias e outros sentimentos.

 

Del.Art: Como você lida com a vilã concorrente, a internet?

Julio Carrara: A internet dá tudo mastigado, não cede espaço para pensar e sentir. Não me importo com esta concorrência, pois é opcional ficar sentado na frente do computador ou diante de um espetáculo.

 

Del.Art: Que recursos você utiliza em seus espetáculos?

Julio Carrara: Uma das principais linguagens que utilizo no grupo em que dirijo (CAD) é o trabalho de corpo, por ser esta linguagem universal, posso perfeitamente transmitir uma idéia para qualquer pessoa que não entenda a nossa língua. Procuro falar com as três linguagens da comunicação: auditiva, visual e cinestésica. Não sou diretor de "um espetáculo só". Gosto de explorar diversos gêneros e estilos: do infantil ao underground e do clássico ao comercial.

 

Del.Art: Qual seu texto favorito?

Julio Carrara: Não há, todos tiveram sua importância.

 

Del.Art: Na maioria das vezes, diretor e ator tornam-se muito amigos. Até que ponto isso atrapalha no lado profissional?

Julio Carrara: Nem sempre diretor é amigo do ator, mas quando é, tem que saber separar as duas coisas. Particularmente, prefiro trabalhar com amigos. O problema é quando eles misturam o lado pessoal e profissional.

 

Del.Art: Isso acontece só com atores ou com diretores também?

Julio Carrara: Às vezes acontece com diretores também. Me policio muito para evitar isso. Prefiro trabalhar com amigos, do que trabalhar com pessoas que nem olham para minha cara. Quando o grupo é amigo, estão na mesma sintonia, esta relação é refletida para o público.