Entrevistado: Ewerton de Castro

Por Nanda Rovere

Del.Art: Como foi a descoberta do teatro, a decisão de se profissionalizar?
Ewerton de Castro: Minha estréia no teatro foi aos cinco anos de idade na 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo, à Rua Nestor Pestana. Quando meus pais se mudaram para São José do Rio Preto acabei tendo que ser diretor, cenógrafo, iluminador, e etc. porque não havia teatro nem na igreja nem na cidade. Eu me descobri fazendo teatro e de boa qualidade. Dos cinco aos catorze fui dirigido por Moacir Costa que pertencia ao elenco da TV Tupi Canal 3, e participava do Teatro da Juventude, Sítio do Pica Pau Amarelo, e novelas, dirigidas pelo Doutor Julio Gouveia. O mais engraçado é que fui convidado a participar de O Pequeno Lord, disputei o papel do protagonista com mais de 300 atores mirins. Fui escolhido, mas na hora de assinar o contrato o pastor da minha igreja aconselhou meu pai a não permitir que o filho entrasse para esse mundo de pecado e perdição. Isso veio a retardar o meu ingresso no profissionalismo que só ocorreu em 1968. Ironicamente minha estréia em Televisão foi na TV Bandeirantes, no Sítio do Pica Pau Amarelo, como Visconde de Sabugosa, sob a direção do Dr. Julio Gouveia.

Del.Art: Na sua trajetória você trabalhou com grandes artistas e diretores (Paulo Autran, Antunes Filho, Eugênio Kusnet, Ziembinsky...Qual a importância que eles tiveram no seu aprimoramento como artista e na sua compreensão do fazer teatral?
Ewerton: Teatro a gente aprende fazendo. O teatro é a nossa grande escola e os professores são os colegas e principalmente os diretores. Tive a honra de trabalhar com os mais importantes e de cada um aprendi um pouco, mas tenho que confessar que Eugênio Kusnet foi quem me "traduziu", de verdade, o Método de Stanislaviski. Só com ele fui entender o mecanismo que o ator tem que usar para CONSTRUIR a "personagem". Esse Método eu uso em todos os meus trabalhos e procuro divulgar sempre. A minha Escola de Teatro, que infelizmente teve de ser fechada, tinha esse Método como base dos ensinamentos.

Del.Art: Qual a diferença entre o teatro atual e na época em que começou a atuar?
Ewerton: A grande diferença está na lei de oferta e de procura. Antigamente tínhamos uma grande procura e os projetos de montagem de espetáculos tinham grande chance de ser bem sucedidos. Eu me orgulho de ter construído o meu patrimônio econômico com o Teatro. Antigamente fazíamos 9 sessões semanais e tínhamos público para lotar todas. Hoje as peças são levadas apenas 2, 3 ou no máximo 4 vezes por semana. E como eu já disse: Teatro se aprende fazendo, na repetição diária do espetáculo que estamos encenando. Em 1971 eu fazia por semana 8 espetáculos de Peer Gynt de Ibsen, 4 de "Patinho Preto", musical infantil de Walter Quaglia e no mínimo mais 3 de Arlequim, Servidor de Dois Patrões de Goldoni, num projeto de teatro para escolas.

Del.Art: Neste sentido, como vê a formação de novos atores, a disponibilidade dos mesmos para as artes?
Ewerton: A formação dos novos atores é falha, principalmente levando em conta o ponto de vista dos próprios candidatos ao ofício. Infelizmente a maioria, seduzida pelo sucesso fácil, almeja sobretudo a Televisão como campo de trabalho. Mas é no Teatro que se constrói uma carreira sólida. Por outro lado, as escolas de formação profissional deixam a desejar quanto à grade curricular. Minha escola, por exemplo, oferecia aulas de Filosofia, Administração teatral e Canto Coral: matérias importantes para uma boa formação de atores e que em geral as escolas não dão por não serem obrigatórias.

Del.Art: Como é a sua relação profissional com a Talita, que aliás é um grande talento. Vocês já contracenaram?
Ewerton: Vejo com muito orgulho a evolução da carreira de Talita Castro, minha filha. É uma pena que só tenhamos estado juntos em Essas Mulheres, da TV Record, mas assim mesmo em núcleos diferentes. Dos quatro filhos apenas a mais velha: Tatiana, não quis ser atriz. Daniel e Rafael, meus filhos gêmeos, trabalharam desde pequenos na TV e no Teatro. Hoje, Daniel se dedica ao Web Design e Rafael trabalha numa rádio em Florianópolis. É muito bom quando os filhos seguem a nossa carreira. Isso é sinal de que conseguimos passar para eles um sentimento de verdadeira paixão pelo nosso trabalho. E nada melhor do que amar o que se faz. Tenho um sonho de reunir a família num espetáculo. Seria muito bom!

Del.Art: Como é a sua experiência na área cinematográfica, sobretudo ter atuado com um dos grandes artistas do cinema nacional que é o Mazzaropi?
Ewerton: No cinema tive também grandes mestres. Logo no meu primeiro filme com Mazzaropi, minha experiência com o Teatro valeu, e muito. Comecei como ator e acabei acumulando outras funções: Continuista e Figurinista. Mazzaropi era um sábio popular. Quando percebeu que eu tinha algum conhecimento teórico teve a coragem de me responsabilizar por áreas novas para mim. Adoro fazer cinema e, se tivesse campo para isso, gostaria de dirigir longas. A minha única experiência nesse sentido foi no filme: Viúvas Precisam de Consolo que também escrevi e produzi. Mas no nosso país é muito difícil sobreviver só com essa atividade, que aliás, precisa de dedicação total e plena.

Del.Art: Sua experiência na TV é enorme, com participação em telenovelas de diversos canais. Quais trabalhos gostaria de citar?
Ewerton: Sem dúvida alguma o Belchior de Escrava Isaura. Foi uma composição difícil e extremamente perigosa mas que o Método de Construção da Personagem me ajudou a realizar, que tem sido bastante elogiado e que faz grande sucesso pelo mundo todo. Cada trabalho me ensinou alguma coisa. Até mesmo o Visconde de Sabugosa de 1968, me ajudou ensinando-me a memorizar os textos. Não posso esquecer também do Gerson do Vale de Roque Santeiro que foi meu passaporte para os 12 anos de trabalho na TV Globo.

Del.Art: E a entrada da TV digital...O que pensa sobre essa nova tecnologias e as mudanças no modo de ver TV que ela acarretará num futuro próximo?
Ewerton: Toda nova tecnologia é sempre bem vinda. Para nós que fazemos televisão, o que muda é que a nitidez das imagens vão exibir um cuidado maior no visagismo de modo geral. Ou seja, cenários mais realistas, maquiagem mais natural... Acho que essa nova tecnologia pode mexer até com os padrões estéticos da representação a que o novo sistema funciona como uma lente de aumento.

Del.Art: Como é a sua relação com o computador – e Internet - e como surgiu a idéia de criar um site para a divulgação de sua trajetória profissional?
Ewerton: Acho que hoje em dia ninguém mais pode viver sem um computador e a Internet. Tenho com eles uma convivência pacífica e vigilância constante para não me escravizar. Isso vicia!

Del.Art: Através de novelas como Roque Santeiro e Escrava Isaura o seu trabalho foi visto em outros países. Como é a sensação de ver o seu trabalho ser apresentado em (e para) outros idiomas?
Ewerton: É muito estranho se ver falando em outra língua mas ao mesmo tempo é confortador saber que nos dias de hoje o Brasil é a Hollywood dos anos 50. O mundo todo nos assiste e se curva diante do nosso know-how.

Del.Art: Como é a sua preparação para os personagens? Conte especialmente como foi a criação e a experiência de interpretar o Belchior, da Escrava Isaura e O Homem Elefante no teatro (personagens que exigem um exímio domínio corporal)?
Ewerton: Desde o início da minha carreira fui sempre um ator preocupado em representar TAMBÉM com o corpo. Acho que o corpo, o instrumento de trabalho do ator, tem que estar preparado para as exigências das personagens que vamos vivenciar. Assim é que fazia trapézio e acrobacia sendo Puck no Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare, dancei sobre patins e fiz trapézio novamente como "Glauco/Bolota" na ¨Patética¨; entortei a coluna como John Merick de O Homem Elefante e Belchior em Escrava Isaura. Hoje em dia, quando se fala no moderno Teatro Físico, eu vejo tudo sem muita novidade. Estando o corpo pronto para qualquer exigência eu CONSTRUO a personagem de "dentro para fora", ou seja, através de pesquisas e muito estudo fico sabendo exatamente como eu acredito que seja aquela personagem. E usando a sua LÓGICA DE AÇÃO, sua maneira de ver e encarar o mundo, passo a pensar como ele, em cena, e deixo que ele atue e comande o meu corpo.

Del.Art: E o Noel Rosa. Fale da experiência de interpretá-lo no espetáculo O Poeta da Vila e Seus Amores.
Ewerton: Na época de Noel diziam que eu era muito parecido com ele. O mesmo fato ocorreu com ¨Patética¨ (Wladimir Herzog). O fato é que os dois não se parecem um com o outro, nem eu com eles. Acho que o que me faz parecido com as personagens que interpreto é a minha entrega total a eles. O ator é como um cavalo mediúnico. A personagem vem e incorpora, ainda mais quando se trata de uma personagem que não é de ficção.

Del.Art: As personagens que você interpreta interferem de alguma maneira na sua vida, mudam a sua visão de mundo?
Ewerton: Sem dúvida alguma. A nossa convivência diária com elas nos influenciam de alguma forma. É como estar com um amigo todos os dias. A gente acaba ficando parecido, até fisicamente.

Del.Art: Além de ator, você é diretor, professor, cenógrafo, autor...Como a sua experiência de ator influencia as outras atividades e vice-versa?
Ewerton: Tudo na minha vida profissional aconteceu por acaso. Comecei a dirigir quando fui para Rio Preto e não havia diretores. Tive também que começar a desenhar os cenários e figurinos porque ainda não havia quem pudesse se encarregar dessas tarefas. Quando tivemos possibilidade de ter iluminação, virei iluminador. A prática desses ofícios me deu experiência necessária para me tornar profissional também nessas atividades. Isso me ajudou como ator porque minha visão foi ampliada e ganhou um outro ângulo, por trás da quarta parede.

Del.Art: Você é contratado da Record. Como é a estrutura da emissora, agora que as novelas são gravadas no Rio?
Ewerton: A estrutura é ótima. Os estúdios, equipamentos, equipes técnicas, tudo da melhor qualidade, além de ficarmos hospedados em apart-hotéis cinco estrelas. Mas o melhor de tudo é a maneira como somos tratados. A relação entre empregados e superiores é bem mais humana do que em outras emissoras nas quais tive oportunidade de trabalhar. Ah, e gravar no Rio de Janeiro é um privilégio. A beleza que entra pelos olhos também alimenta a alma da gente.

Del.Art: O que te move como artista, quais os seus sonhos e projetos?
Ewerton: Gostaria de poder ser mais útil. Além de entreter, o ator tem uma missão mais importante que é a de conscientização da sociedade. Somos o "ESPELHO MÁGICO" que mostra a realidade do mundo. E dependendo da eficácia dessa "imagem" podemos modificar o ser humano.

Trajetória profissional:

Ewerton de Castro é um artista que cativa pelo carisma, pela sua entrega aos personagens e pela expressividade.
Ator, Diretor, Professor de interpretação, Cenógrafo, Figurinista, Iluminador e Autor são as suas atividades nas artes cênicas, numa carreira pautada pela realização de trabalhos coerentes e de qualidade. Atua no teatro, cinema e TV.
Começou a se dedicar à carreira artística no teatro amador, na igreja que freqüentava em São José do Rio Preto (ainda em São Paulo, aos cinco anos, estreou no teatro da 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo). A sua estréia profissional foi na montagem denominada Cozinha, dirigida por Antunes Filho, em 1968. Entre as inúmeras peças estão: Ator - Peer Gynt, Medeia, Tango, O Poeta da Vila e Seus Amores, Patética, A Luta Secreta de Maria da Encarnação, A Peça Sobre o Bebê, Veneza, Não esqueça de Aguar as Plantas, 24ª Encenação da Fundação da Vila de São Vicente (como Martim Afonso de Souza ); Diretor - O Cigano, O Diletante, A Casa de Bernarda Alba, Bodas de Sangue, Nossa Pequena Cidade (autor), Dama de Copas e o Rei de Cuba.
No cinema, estreou na comédia O Jeca e a Freira, ao lado de Mazzaropi.
Entre as telenovelas estão Xeque-Mate, Éramos Seis, Roque Santeiro, Kananga do Japão, Pantanal, Fera Ferida, A Escrava Isaura, Essas Mulheres e Bicho do Mato (as três últimas na TV Record, da qual é ator contratado).
Dois trabalhos merecem destaque especial em virtude da singeleza dos personagens, enquanto sensibilidade e exigência de um exímio domínio corporal: o Belchior, da telenovela Escrava Isaura e O Homem Elefante, no teatro.
Foi um privilégio entrevistar Ewerton de Castro, cujo reconhecimento profissional, por parte do público e da crítica, serviu como estímulo para o artista continuar a exercer a sua profissão com dedicação e buscando sempre o aprimoramento.
Vale a pena conhecer detalhadamente a sua carreira visitando o site: www.ewertondecastro.com.br