Entrevistado: Eriberto Leão

Por Nanda Rovere

Del.Art: Como você analisa a sua carreira neste momento, em que terminou a temporada da peça, com a novela e filmes a estrear?
Eriberto Leão: É um momento de maturidade. Estou fazendo teatro, cinema e TV, exercendo as três vias da minha arte, as três formas. Também é um momento de bastante tranqüilidade, porque o meu filme não ganhou nem um Oscar, o meu personagem na novela não é o protagonista e a peça, apesar de não ter sido um estrondoso sucesso, me proporcionou dividir o palco com a Ana Beatriz Nogueira, que admiro muito e já é consagrada. É um ótimo momento, que talvez só eu enxergue, isso é interessante. Acredito que tudo o que a gente planta, um dia a gente colhe. Eu busquei do fundo do meu coração e, quando desejamos algo, um dia a nossa hora chega - a minha chegou - e estou muito feliz.

Del.Art: Você começou a atuar nos espetáculos do Gabriel Villela, não? Como foi a parceria na criação de Alma de Todos os Tempos?
Eriberto: Foi uma época de preparação, de descoberta. Depois, fui batalhando e correndo atrás.
Alma foi um momento muito especial da minha vida. Acredito que ¨Alma¨ era uma peça ¨glauberiana¨ - guardadas as proporções da genialidade do Glauber Rocha - o que o Glauber queria fazer no cinema eu e o Gabriel tentamos fazer nesse espetáculo. Era uma peça maravilhosa, mas tive que tirar dinheiro do meu bolso, porque ela foi pouco compreendida. Houve um momento em que eu fiquei desesperado, com pouca grana, mas aí veio a novela Cabocla e eu entrei para a TV.

Del.Art: Você já tinha feito algumas novelas antes, como a O Amor Está no Ar, do Tide (Alcides Nogueira)...
Eriberto: Fiz Antonio dos Milagres na CNT, depois a do Tide e mais duas novelas, uma na Bandeirantes e outra na Record; mas a minha estabilidade só veio com Cabocla e estou na Globo há três anos.

Del.Art: Depois de Ventania e Alma de Todos os Tempos, você trabalhou com diretores diversos... Cite as montagens das quais você já participou e como foi a experiência de trabalhar com os seus respectivos diretores?
Eriberto: Fiz O Evangelho Segundo Jesus Cristo, com o Possi, depois As Bruxas de Salem, com o Abujamra e uma peça chamada Karma Cor de Rosa (2003), com o Marcos Alvisi. Todos têm o seu valor, a sua genialidade.O Evangelho foi um espetáculo muito importante. Trabalhar com o Abujamra e o Possi (encenando texto do Saramago, adaptado pela Maria Adelaide Amaral), não é preciso falar mais nada; mesmo assim, eu não tinha, nessa época, estabilidade nenhuma...Me vejo como um ralador total.

Del.Art: Você fez a EAD e estudou nos EUA. Considera essencial na formação de um artista que ele faça escola de teatro?
Eriberto: Para mim a escola foi essencial. Tem pessoas que já nascem com talento e talvez não precisem estudar, mas eu nasci com vocação e o talento eu tive que aprender, tive que correr atrás. Eu não tinha a mínima condição de subir no palco e trabalhar; eu precisava me preparar antes.

Del.Art: E a mudança para o Rio, como foi? Neste sentido, como você avalia a produção teatral carioca?
Eriberto: Estou radicado lá. Não me considero um ator paulistano. Fui muito pouco compreendido na minha terra. Não me considero de lugar nenhum, mas acabei trabalhando mais no Rio de Janeiro. Tem peças que eu fiz no Rio que não vieram para São Paulo, como As Bruxas de Salem e o Karma Cor de Rosa. Moro no Rio de Janeiro, amo a cidade e me sinto como os profetas do Antigo e Novo Testamento, que tinham certos problemas com a sua terra natal; não que eu tenha problemas, mas eu não tenho ligação afetiva com a classe teatral paulista, apesar de ter trabalhado aqui e achar o teatro produzido na cidade o melhor do Brasil.

Del.Art: Muitas pessoas dizem que a produção teatral carioca é fraca, ¨deixa a desejar¨...
Eriberto: Não concordo. Lá tem a Companhia dos Atores, tem Daniel Hertz, vários grupos interessantíssimos. Como eu disse, sem dúvida o teatro paulista é o melhor do país, mas, às vezes, ele é um pouco pretensioso, e tudo fica muito na verborragia, no querer-ser intelectual. Claro que há exceções...

Del.Art: Então você não tem muito contato com a vida cultural daqui?
Eriberto: Não, não tenho. Eu conheci, por exemplo, a Praça Roosevelt (enquanto centro de encontro da classe teatral paulista) ontem, um amigo me levou.

Del.Art: Já conhecia os textos da Leilah Assumpção? Como surgiu o projeto da peça e fale da experiência de estar ao lado da Ana Beatriz Nogueira. Já havia trabalhado com ela?
Eriberto: Conhecia a Leilah e gosto muito dela. Intimidade Indecente foi uma peça que me emocionou muito. Temos uma relação de amor, de parceria. Talvez a gente faça uma peça no futuro...
Foi a Ana quem me chamou pra fazer a peça. Nunca tinha trabalhado com ela e o saldo é super positivo porque é mais uma peça em que eu mergulhei profundamente. Sou um ator muito mais maduro por ter convivido com a Ana e ter sido dirigido pelo Paulo de Moraes, que passou pelo Galpão - um dos grupos que eu mais admiro - e dirigiu o maravilhoso espetáculo Pequenos Milagres.
Estou muito feliz, muito satisfeito.


Del.Art: Já tem novos projetos no teatro?
Eriberto: Interpretar o Jim Morrison, que já estou há mais de cinco anos para fazer. Desde a época do Alma de Todos Os Tempos, eu já queria fazer.Vai ter uma peça no Rio agora, que até me sondaram para participar, mas a minha peça é diferente e talvez ela seja o próximo projeto.

Del.Art: Alma de Todos os Tempos era um musical. Sei da sua paixão por rock, como, por ex, pelo Jim Morrison, que você acabou de citar. Aliás, você teve banda e foi vocalista, pretende voltar a atuar na área musical?
Eriberto: No momento, o meu lado musical anda meio em segundo plano; neste momento, estou totalmente focado no ofício de ator. Com o espetáculo sobre o Jim Morrison, pretendo juntar os meus dois lados novamente.

Del.Art: Na criação dos personagens você usa a música?
Eriberto: Sim, sou um homem musical, a minha vida tem trilha sonora o tempo todo. Sempre pego músicas que acredito serem interessantes para a criação do personagem. (Del.Art) Preferencialmente rock? Rock ainda é o estilo de música que mais me aquece, mas gosto também de música clássica, jazz; depende do personagem, da vibração dele.

Del.Art: Você é um ser humano muito espiritualizado, que se interessa por assuntos ligados ao aprimoramento do conhecimento humano. Como isso o ajuda na profissão?
Eriberto: Atuar para mim é totalmente espiritual. Para mim, não tem diferença entre a vida diária (material/física) e a vida espiritual, porque elas são interligadas, uma coisa só.

Del.Art: O que te move como artista neste momento?
Eriberto: Continuo com a mesma paixão de sempre e acreditando na arte e não no sistema, porque com o sistema eu ainda continuo com o pé atrás. William Blake dizia que cada artista tem um ¨gênio poético específico¨ e alguns são da mesma tribo... O que me move enquanto artista é ser inspirado por um gênio poético, o qual inspirou os homens que são meus ídolos: Glauber, Jim Morrison, Guevara, que, para mim, antes de mais nada, é um artista também.

Del.Art: Você interpreta personagens com um rico conteúdo, batalhadores...Você sempre buscou isso ou as oportunidades foram acontecendo?
Eriberto: Cada personagem é único e eu os amo muito. O universo é coerente, a vida é coerente. Se você pegar a carreira de um artista e analisar os personagens que ele faz, você vai conseguir encontrar uma conexão entre cada um deles; você consegue ver de fora um todo se formando; essa é a lei de sincronicidade que rege o nosso universo. O Big Bang estourou no caos e depois entrou numa ordem que vem da sincronicidade, é uma ordem relativa, quântica (depende do ponto de vista do observador), mas existem leis que regem o universo e essas mesmas leis regem as nossas vidas...Tudo veio do meu coração, do meu esforço, e o que chamam de sorte, eu chamo de benção.

Del.Art: Te considero uma pessoa que foge do glamour que envolve a vida de quem faz TV. Como você lida com o assédio, com a invasão da vida pessoal?
Eriberto: Eu não sou celebridade, então, quando estou no ar até podem tirar, de repente, uma foto na praia, mas não me preocupo com isso. O que me interessa é poder exercer o meu ofício plenamente e conseguir um dia ser um ator com credibilidade suficiente para poder abrir certas feridas do nosso país e da nossa classe artística e propor curativos. Sem querer ser o dono da verdade, espero ser um dia inspirado por esse ¨gênio poético¨ de que eu te falo sempre, que pode ser chamado também de Espírito Santo, para ser mais específico. Poder fazer a diferença é o que me interessa.

Del.Art: Você fez um curta em celular, como foi a experiência?
Eriberto: O filme já está finalizado. Ele foi feito no celular e gravado no cemitério São João Batista, é um curta que apresenta três figuras baianas muito importantes para mim: Glauber, Castro Alves e Raul Seixas. Mandei para um festival da Bahia, mas por causa de dois segundos eu fui eliminado. O vídeo que ganhou foi o de uma minhoca andando no pára-brisa de um carro ! Se o Festival de Celular da Bahia exclui um vídeo que tem como tema esses três baianos que, na minha opinião, são os mais importantes artistas da Bahia (mais até do que Caetano e Gil), e dá o prêmio a uma minhoca, é a mesma situação do Glauber em Veneza quando A Idade da Terra foi execrado pela crítica; eu quase fiz como o Glauber lá em Veneza: realizei uma passeata na Bahia. Fiquei muito triste, mas me senti conectado com os três mestres. Um dia, eu poderei mostrar isso e contar que quem ganhou foi uma minhoca (rs). No Youtube tem o vídeo e todos podem ver a sua mensagem.

Trajetória profissional:

Eriberto Leão é um artista que vem traçando uma sólida trajetória profissional, um dos melhores atores da atualidade. Acredita na arte como um meio de transformação do mundo em que vivemos, através do aprimoramento do nosso conhecimento, e tem interpretado personagens bem interessantes.

Formado em Artes Cênicas pela EAD (Escola de Arte Dramática), o seu primeiro trabalho profissional foi o inesquecível espetáculo Ventania, com direção de Gabriel Villela (1996). Depois veio o alucinante Alma de Todos os Tempos (também dirigido por Gabriel Villela), em que o artista (mais os integrantes de sua banda Estranhos, e Nábia Villela) homenageavam, unindo teatro e música, os ícones do rock que buscaram criticar a realidade e lutar por um mundo mais justo. Nesse momento, Eriberto já havia feito TV: Antonio dos Milagres, Serras Azuis e O Amor Está No Ar...

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, com direção de José Possi Neto, foi outro momento especial de sua carreira no teatro.

Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, fez outros espetáculos interessantes, como As Bruxas de Salem (direção de Antonio Abujamra). A sua participação na TV tornou-se mais corriqueira (com destaque para os sucessos Cabocla e Sinhá Moça) e o seu crescimento enquanto intérprete mostra-se notório.

Com contrato fixo com a TV Globo, o ator está no ar com a novela Duas Caras e finalizou a temporada de Fala Baixo Senão Eu Grito de Leilah Assumpção, em que atuava ao lado de Ana Beatriz Nogueira (direção de Paulo de Moraes).

Apaixonado por rock, carrega o desejo de interpretar o músico Jim Morrison no teatro e tem como objetivo aprimorar-se, cada vez mais, como ator.

No cinema, a sua estréia foi no longa Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado (que já foi apresentado em mostras e em breve entrará em circuito comercial), Intruso, de Paulo Fontenelle, e Um Homem Qualquer, de Caio Vecchio.

Conheci o ator Eriberto Leão no espetáculo Ventania e, desde então, acompanho as suas realizações profissionais.

Conheci o ator Eriberto Leão no espetáculo Ventania e, desde então, acompanho as suas realizações profissionais.

Em 2000, após uma apresentação de Alma de Todos os Tempos, no Teatro Paulo Eiró (São Paulo), o entrevistei e o resultado foi excelente.

Entrevistá-lo novamente foi muito proveitoso, pois as suas idéias sobre o ¨fazer artístico¨ demonstram que felizmente existem artistas preocupados em suscitar reflexões e contribuir para a melhoria do nosso mundo em que vivemos, através dos seus trabalhos.