O Santo Parto

Por Michel Fernandes


O Santo Parto, nova peça escrita pelo dramaturgo, autor de telenovelas e minisséries conhecidas como Zazá e Aquarela do Brasil, ente outras, Lauro César Muniz, parte de um tema polêmico – a sexualidade vista por olhos da igreja cristã, com a história da gravidez de um padre –, sem, no entanto, provocar reflexões a respeito do conteúdo.

O registro da peça parece, à primeira vista, não se preocupar com a realidade e, sim, com uma verossimilhança interna, ou seja, ao mostrar a história de um padre grávido à beira de dar à luz, ao colocar elementos fantásticos como a transformação da porta da igreja em parede, a evocação de São Jorge para ajudar no parto do padre e a humanização do Cardeal fundador da diocese, morto há mais de 200 anos, outrora apenas enquadrado, entre outros elementos que fogem da realidade cotidiana.

Se a peça evoca uma alegoria onírica utilizando diálogos coloquiais para narrar acontecimentos insólitos que se passam num tempo mítico (evocando fatos passados, presentes e, até, sincretismos religiosos em cena), o texto preocupa-se demais em encontrar justificativas que fundamentem a ação dos personagens. Aí que a peça se desequilibra do frágil limiar em que estava estruturada e torna-se previsível. As piadas gastas que a peça apresenta parecem clamar risos o tempo todo. Mas o riso sai amarelado feito fotografia envelhecida. Dèja vu.

A direção de Bárbara Bruno é bastante simples e enxuta, mas não consegue extrair verdade dos atores, e olha que são atores de excelência comprovadíssima!: Marco Antonio Pâmio e Marcos Breda. Mesmo assim eles nem emocionam nem nos levam a uma reflexão.

O sincretismo religioso, entre a cultura afro e cristã, não atinge profundidade que justifique sua utilização além de mero adorno visual.

Apesar de não me contentar com O Santo Parto, seu objetivo simbólico de dar à luz uma reflexão sobre o papel da igreja, entre tradição e evolução histórica, sobretudo no que diz respeito à diversidade sexual, se não o é, de todo, atingido internament, ou seja, com a encenação, o é fora de cena, provocando polemico alarde entre os católicos de tradição mais fundamentalista.

Michel Fernades
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